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O Festim de Oeiras — e a Conta que Fica para Pagar

Fernando Antunes 

Membro eleito da Assembleia de Freguesia de Carnaxide e Queijas, Iniciativa Liberal

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Há uma frase que atravessou os séculos e não perdeu um grama de pertinência: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente.” Escreveu-a Lord Acton em 1887. Não escreveu sobre Oeiras, mas o cenário atual do concelho serve de ilustração perfeita para a máxima britânica.

Isaltino Morais construiu um legado real e seria desonesto negá-lo. A erradicação de bairros de barracas, a atração de gigantes tecnológicas, o aproveitamento inteligente de fundos e a transformação de descampados em polos de inovação são factos. Os oeirenses reconheceram-no sucessivamente nas urnas. Contudo, o problema nunca foi o que Isaltino fez; o problema é o que se permitiu que acontecesse enquanto a atenção geral estava fixada nos “feitos”.

Nas sombras desse desenvolvimento, instalou-se uma teia de interesses. Amigos foram colocados em empresas municipais que vivem numa dependência existencial da Câmara. Nas rotundas, brotaram obras de arte de lógica administrativa nebulosa e ajustes diretos criativos, como a escultura de Porto Salvo, que parece ter escapado de um episódio de Pokémon. O obelisco entrou para o folclore local. E, no topo desta pirâmide, ergueu-se a nova sede camarária: uma torre faraónica que não destoaria num emirado do Golfo, completa com uma varanda no cume, de onde o senhor presidente pode, presumivelmente, acenar à distância aos seus súbditos.

Apesar da magnitude das obras, nada disto chegou ao grande público com a força que merecia até surgirem os almoços. As refeições faustosas custeadas pelos contribuintes, denunciadas pela Iniciativa Liberal através de Mariana Leitão, revelaram um padrão ético assustador. A resposta de Isaltino ao vinho de 50 euros foi digna de antologia: como não custava 500 euros, dando a entender que o erário público devia estar-lhe grato pela poupança de 450 Eur. 

O que se seguiu foi uma manobra de marketing político audaz. Isaltino tornou-se o mais famoso instagramer gastronómico de Oeiras, exibindo banquetes com a naturalidade de quem nada tem a esconder, tentando ridicularizar o aviso óbvio lançado por um cartaz da Iniciativa liberal: “Não há almoços grátis”. Há, aparentemente. Especialmente quando se come com o dinheiro dos outros.

Esta semana, porém, a “política dos almoços” regressou com uma gravidade que já não admite o habitual desdém. O Ministério Público acusou Isaltino Morais e outros 22 responsáveis de peculato e abuso de poder. Em causa está um “festim” de 1.441 refeições pagas pelo município entre 2017 e 2024, num total de 150 mil euros. A investigação da PJ aponta para gastos bizarros: múltiplas refeições no mesmo dia e faturas de 900 euros regadas a marisco, álcool e tabaco. O MP é claro ao descrever um desígnio de apropriação de fundos públicos para benefício de uma elite autárquica, pedindo a perda de mandato para os arguidos.

A resposta de Isaltino manteve a cadência do costume: diz que são “almoços de trabalho” e que “não se vai dizer a uma pessoa para não beber vinho”. Uma argumentação de uma coerência inabalável, não fosse o facto de que 241 páginas de acusação raramente se desfazem com uma declaração à porta da Câmara.

Entretanto, a conta foi crescendo a um ritmo que merece atenção. O edifício da nova sede camarária, orçamentado inicialmente em 43 milhões de euros, terá derrapado para valores que já rondam os 70 milhões — e a obra ainda não está encerrada. Para cobrir estes custos, contratam-se dívidas de longo prazo com uma mestria digna de nota: o dinheiro gasta-se agora, a fatura chega depois, endossada às gerações e aos mandatos vindouros. Os feitos ficam para o currículo; as dívidas ficam para os outros.

E o povo? O povo deu-lhe maioria absoluta. Varreu o concelho. A equação que os oeirenses fizeram foi simples e compreensível, embora perigosa: “Ele come, mas faz.” É uma fórmula antiga para tolerar o que não se devia tolerar. É a resignação institucionalizada como virtude cívica.

O problema com essa equação é que tem um prazo de validade. Chega um momento em que o prato está vazio, a obra parou, e a conta chegou ao balcão. E aí não há Instagram que distraia, nem vinho a 50 euros que justifique a diferença.

De um ponto de vista liberal, o que está em causa não é apenas a gestão de um município. É algo mais fundamental: a concentração de poder sem contrapeso, sem transparência e sem prestação de contas real. Quando uma câmara, as suas empresas municipais e os seus eleitos se tornam um ecossistema fechado, autorreferencial e impermeável ao escrutínio, o resultado não é desenvolvimento, é captura. E as populações que aplaudem esse modelo não estão a votar num bom gestor; estão a abdicar da sua capacidade de exigir.

Os liberais acreditam que as instituições devem servir os cidadãos, e não o inverso. Que o dinheiro público tem dono, é o contribuinte e que quem o gere deve prestar contas, com transparência, sem a condescendência de quem acha que o povo não entende ou não merece saber.

Oeiras não precisa de um rei. Precisa de um município.

E os oeirenses merecem mais do que herdar um prato vazio e uma dívida com data de vencimento cuidadosamente colocada depois das próximas eleições e das seguintes, e das que vierem depois dessas.


Marina Pereira

Marina Pereira

Nº 3

Assembleia Municipal de Oeiras

Com formação em Matemática, Estatística, Actuariado e Gestão de Riscos Financeiros, trabalhei vários anos numa multinacional seguradora do ramo vida, onde dirigi a área técnica. Há 20 anos optei por sair para desenvolver o meu próprio negócio com uma pequena empresa agrícola e poder abrandar o ritmo de vida Agora com 58 anos e um filho de 14, proponho-me abraçar o desafio da política a nível local e integrando as listas de candidatura da freguesia e do concelho em que resido onde procuro colaborar para mudar algumas das coisas que critico ou repudio nessas estruturas, pela sua falta de visão, voluntarismo e eficiência. Espero, se for eleita, poder colaborar com os restantes eleitos para implementar uma prática mais transparente, esclarecendo os munícipes sobre as escolhas disponíveis em cada situação e qual a que irá ser a opção implementada, porque motivos e com que custo

Bruno Mourão Martins

Nº 1

Executivo Municipal

Anabela Brito

Anabela Brito

Nº 1

Assembleia Municipal

Membro da Assembleia Municipal

Sempre viveu no Concelho de Oeiras mais propriamente em Paço de Arcos.

Licenciada em História com frequência de Direito, concluiu uma especialização em Fiscalidade no ISCTE.

Frequentou o Curso de Relações Internacionais de preparação para a carreira diplomática e obteve formação ao nível da Gestão de Empresas.

Iniciou a sua carreira no sector do turismo tendo passado pela aviação e expo 98.

Foi docente e atualmente é empresária no ramo imobiliário.

Integra o Grupo de Coordenação Local do NT de Oeiras.

Substituiu Mariana Leitão na Assembleia Municipal de Oeiras em Janeiro de 2024